As ações dos EUA encerram o primeiro trimestre de 2025 em baixa. O S&P 500 e o Nasdaq Composite registraram seus piores resultados trimestrais desde 2022, abalados pela crescente incerteza em torno da nova estratégia econômica de Donald Trump. O retorno do ex-presidente à Casa Branca e suas medidas drásticas na política econômica externa esfriaram o entusiasmo dos investidores.
Março foi especialmente doloroso para Wall Street. Ambos os índices sofreram suas maiores perdas mensais desde dezembro de 2022. O motivo foi uma guinada brusca na política comercial – uma nova onda de tarifas da administração Trump provocou temores de uma escalada das tensões globais. Os investidores temem que essas medidas possam não apenas desacelerar o crescimento econômico global, mas também desencadear um surto inflacionário.
Nos três primeiros meses do ano, o S&P 500 caiu 4,6% e o Nasdaq, 10,5%. Até o mais estável Dow Jones cedeu à pressão, perdendo 1,3%. Em meio a expectativas e receios, o mercado demonstrou alta volatilidade, com os gigantes da tecnologia no centro das liquidações.
Os símbolos do último rali de alta – as chamadas "sete magníficas" do setor de tecnologia – de repente se viram sob ataque. Investidores abandonaram ações que antes eram motores de crescimento. As ações da Tesla caíram quase 36% no trimestre, enquanto a Nvidia perdeu cerca de 20%.
As perdas foram especialmente acentuadas nos setores de tecnologia e bens de consumo, ambos registrando quedas de dois dígitos. No entanto, apesar do cenário negativo, nem tudo foi desastroso. A maioria dos 11 setores do S&P 500 conseguiu fechar o trimestre no azul. A energia liderou os ganhos, subindo impressionantes 9,3%.
Os investidores tiveram um respiro no início da semana: o mercado de ações recuperou parte das perdas, apesar das tensões persistentes em torno das tarifas. À espera de esclarecimentos de Trump, prometidos para quarta-feira, os traders deixaram de lado, temporariamente, os temores sobre um possível agravamento dos conflitos econômicos globais.
No domingo, Trump fez uma declaração contundente: confirmou que pretende expandir as barreiras tarifárias em escala global. Além das tarifas já impostas sobre metais, automóveis e produtos chineses, novas medidas ainda mais amplas estão a caminho. Essa retórica agressiva aumenta a ansiedade dos mercados, que já discutem possíveis medidas retaliatórias dos parceiros comerciais dos EUA.
Apesar da tensão geral, o S&P 500 subiu 30,91 pontos na segunda-feira, fechando em alta de 0,55%, a 5611,85. O Dow Jones também terminou no verde, com um aumento de 417,86 pontos (+1%), atingindo a marca histórica de 42.001,76. No entanto, o Nasdaq mostrou uma dinâmica oposta, caindo 23,70 pontos (-0,14%), para 17.299,29.
O crescimento do S&P 500 foi impulsionado pelo setor financeiro. As ações da Discover Financial Services dispararam 7,5%, enquanto os papéis da Capital One subiram 3,3% em meio à possibilidade de aprovação da fusão das empresas pelos reguladores. O interesse dos investidores no setor bancário cresceu, visto como uma oportunidade especulativa diante das consolidações.
Diante da incerteza, o setor de bens de consumo, tradicionalmente considerado um "porto seguro" para investidores, emergiu como o líder dos ganhos, subindo 1,6%. Isso indica uma demanda crescente por empresas estáveis, com lucros previsíveis. O setor de energia também fechou em alta, impulsionado pelo aumento dos preços do petróleo.
As tensões subjacentes continuam. O Índice de Volatilidade CBOE (VIX), conhecido como o "termômetro do medo" de Wall Street, subiu para 22,28 pontos, o nível mais alto em duas semanas. Isso sugere que os investidores ainda esperam movimentos bruscos e não descartam novos choques no mercado.
A incerteza comercial levou o Goldman Sachs a revisar suas expectativas econômicas. O banco agora estima a probabilidade de uma recessão nos EUA em 35%, ante 20% anteriormente. Além disso, reduziu sua previsão para o S&P 500 no final do ano para 5.700 pontos. Os investidores também reagiram ao novo prognóstico: analistas esperam que o Federal Reserve recorra a mais cortes nas taxas de juros.
O mercado está em compasso de espera por uma série de publicações macroeconômicas. Os destaques incluem os últimos índices de atividade empresarial do ISM e o relatório de empregos não agrícolas – um dos principais termômetros da economia dos EUA. Além disso, os investidores aguardam discursos de dirigentes do Fed, incluindo Jerome Powell, cujas declarações podem definir o tom dos mercados financeiros nas próximas semanas.
O setor de saúde sofreu um golpe após a inesperada renúncia de um dos principais diretores da FDA, responsável pelo desenvolvimento de vacinas. A reação do mercado foi imediata: as ações da Moderna caíram quase 9%. Empresas de terapia genética também sentiram o impacto – a Taysha Gene Therapies perdeu 28% de seu valor, enquanto a Solid Biosciences caiu mais de 14%.
No setor corporativo, uma grande transação foi anunciada: a Rocket Companies, gigante do setor hipotecário, concordou em adquirir a Mr. Cooper Group por US$ 9,4 bilhões. O mercado reagiu de forma mista: as ações da Rocket despencaram 7,4%, enquanto as da Mr. Cooper dispararam 14,5%. Fusões e aquisições continuam a movimentar o mercado, criando vencedores e perdedores inesperados.
Enquanto isso, os mercados europeus mostram um otimismo cauteloso. Após caírem para mínimas de dois meses, as bolsas europeias fecharam em alta na terça-feira. No entanto, os investidores permanecem atentos às tarifas dos EUA, que podem impactar empresas europeias. As ações de saúde foram as maiores beneficiadas, com o setor subindo 1%, indicando uma busca contínua por ativos defensivos.
O índice pan-europeu STOXX 600 subiu 0,6% na manhã de terça-feira (GMT), recuperando-se de uma queda de 1,5% no dia anterior. Os investidores começaram a retornar a ativos de risco, embora as preocupações com as tensões comerciais globais persistam.
Apesar das incertezas, o STOXX 600 manteve-se positivo no trimestre. Após uma correção de 5% desde os recordes de março, os investidores voltaram os olhos para a Europa. As razões incluem medidas agressivas de estímulo da Alemanha e sinais de desaceleração nos EUA, tornando os ativos europeus mais atraentes no curto prazo.
Em meio às expectativas moderadas, surgiram dados positivos inesperados. O mais recente levantamento sobre a atividade industrial da zona do euro indicou sinais iniciais de recuperação, após meses de estagnação.
Os investidores estão na expectativa dos últimos dados sobre a inflação da zona do euro, que serão divulgados às 09:00 GMT. A importância dos números aumentou depois que a Alemanha surpreendeu os analistas com um crescimento de preços mais fraco do que o esperado em março, elevando as apostas de que o Banco Central Europeu (BCE) possa flexibilizar ainda mais sua política monetária.
Mais tarde no dia, os mercados ouvirão duas figuras-chave da política monetária europeia: a presidente do BCE, Christine Lagarde, e o membro do conselho, Philip Lane. Seus comentários podem lançar luz sobre a visão do regulador em relação à trajetória da inflação e seus próximos passos em relação às taxas de juros.
As ações da Bavarian Nordic subiram quase 1,8% após a aprovação, pelo regulador dos EUA, de uma nova versão de sua vacina contra mpox (antiga varíola dos macacos) e varíola. A versão liofilizada (desidratada) do medicamento é mais estável e mais fácil de armazenar, especialmente em locais com acesso limitado a cadeias de frio. Para a empresa dinamarquesa, essa aprovação representa um passo importante na sua expansão global e no fortalecimento de sua posição no mercado farmacêutico dos EUA.
Uma possível mudança nas regras corporativas está sendo debatida na Itália e pode impactar significativamente o mercado de fusões e aquisições. As autoridades estão considerando aumentar o limite mínimo de participação acionária a partir do qual os investidores são obrigados a fazer uma oferta de compra do restante das ações. Atualmente, esse limite é relativamente baixo, e qualquer alteração pode modificar o equilíbrio de poder nas grandes empresas de capital aberto.
Um dos exemplos mais marcantes do impacto potencial da reforma pode ser a Telecom Italia (TIM). O gigante financeiro estatal Poste Italiane está se preparando para se tornar o maior acionista da operadora, aumentando sua participação para 24,8%. Pelas regras atuais, essa participação acionária acionaria automaticamente uma oferta obrigatória de compra das ações remanescentes. No entanto, se o limite for elevado, a Poste Italiane poderá aumentar significativamente sua influência sem a obrigação formal de consolidação.
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